Sobre as Perguntas, as Respostas e os Números

Perguntas e respostas simples e cotidianas, as que passam despercebidas, revelam muito sobre as pessoas.

Acabo de comprar o primeiro apartamento de minha vida. A realização de um sonho. Nunca imaginei que esse dia chegaria, mas, teimosamente, imaginava esse lugar. Pensava na sala que comportasse os amigos para assistirmos uma partida do São Paulo Futebol Clube pela TV, numa cozinha que desse para o Júnior cozinhar as suas especiarias, num quarto que desse para o Rogério dormir de vez em quando, numa varanda onde eu pudesse tocar minha viola, em espaços onde coubessem algumas plantinhas e quadros.

Mas ninguém me perguntou sobre viola, plantas, quarto pra amigo, espaço pra ver jogo. Queriam saber a metragem, o valor, quanto dei de entrada, em quantos anos pagaria. Todas, perguntas cujas respostas seriam números.

Adultos gostam de números. Os números são os aferidores de sucesso. Alguém cujo salário é “x”, é mais importante do que o outro alguém cujo salário é “x menos algum número”. Quem mora em “y” metros quadrados mora melhor do que quem mora em “y menos algum número” de metros quadrados. Os números são um importante aferidor de sucesso, mas um péssimo aferidor de alegria e contentamento.

Por isso prefiro as crianças. Conhecem pouco sobre os números. A Catarina gostou do cachorro, o Thiago, do pequeno salão de brinquedos e a Sophia, do papel de parede roxo, a única coisa que eu mudaria na casa. Não sabem, nem querem saber nenhum outro dado sobre a sua nova residência. O que sabem é suficiente para se verem felizes ali.

Quando eu era criança, queria ser lixeiro. Perguntavam-me a clássica: “o que você vai ser quando crescer”. Não titubeava: “lixeiro”, para a frustração de todos. Que vida deliciosa a de andar pela cidade toda pendurado num caminhão, brincando de acertar sacos dentro da caçamba, conhecendo gente nova todo dia. Eu tinha certeza de que era isso que queria. Liberdade, aventura e amigos. Eu subia nos carrinhos de supermercado e ía jogando enlatados, pacotes de arroz, feijão e farinha pra dentro do carrinho. Às vezes jogava um pote de requeijão, que se espatifava todo. Estava simulando o que seria quando crescesse.

Cresci e vi que a liberdade e a aventura de ser lixeiro não trariam os números que eu precisava para ser “alguém na vida” e desisti.

Mas ainda sei que nenhum número compra nem liberdade, nem aventura e muito menos amigos.

Fabricio Cunha

3 Comentários "Sobre as Perguntas, as Respostas e os Números"

  • Wander says:
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