Todos têm razão em ficar perplexos.
Uma tragédia dessas, um filho que mata a facadas pai e mãe, nos tiraria a paz no dia.
Isso se agrava quando pai e mãe brutalmente assassinados, são dois arautos do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
Todos têm razão. Perde a Igreja, perde o povo do Deus altíssimo, perde a sociedade em geral.
Mas, irmãos um pouco mais distantes, vocês não têm ideia do quanto se perde de alegria, do quanto as mesas ficarão mais tristes. As histórias serão menos interessantes. Os dados e informações voltarão a ser frios. As conversas serão mais enfadonhas.
Aquele que sabia contar histórias como ninguém, fazer rir e chorar, que sabia bater sem doer, que esticava monólogos que tinham tudo para dar sono, mas instigavam e faziam com que duas ou três horas parecessem poucos minutos, se foi.
Se foi ontem de forma rápida, como sempre, sem despedir-se, como nunca soube fazer muito bem.
Foi-se Dom Robinson, homem ilustre e ilibado. Servo fiel do Deus altíssimo, que recebeu-o pessoalmente na glória. Homem cuja humildade era tão extensa quanto seu curriculum.
Um bom amigo mais velho, que enchia a nossa vida, a dos mais novos, de sonhos e esperança.
De tantas coisas a se lamentar, lamento o fato de que as mesas e as histórias nunca mais serão as mesmas…
De seu colega mais novo, Fabricio Cunha.
Em minha pouca experiência de vida e, menor ainda, no contexto eclesiástico, tenho me impressionado com a velocidade da dinâmica das mudanças no seio da Igreja evangélica. Junto a isso, a diversidade de sistemas, ferramentas, livros, visões, e uma enorme gama de características que compõem o ambiente evangélico, têm me causado um sentimento duplo, que se constitui, em primeira instância, de uma confusão mental generalizada e, num segundo momento, agrava-se com o sentimento de medo e perplexidade face à falta da idéia de onde chegaremos como igreja.
Práticas como a Teologia da Prosperidade, têm suplantado a doutrina bíblica e outras tantas, tais como a da maldição hereditária, a banalização da batalha espiritual, a doutrina do “eu determino”, têm tomado o lugar da “mensagem da Cruz”, tão pouco pregada nos púlpitos evangélicos contemporâneos.
Entretanto, um outro tipo de teologia é o que mais me preocupa, a Teologia dos Resultados. Tal teoria, vinda principalmente dos EUA, tem se tornado “lei” no que diz respeito a assuntos como a evangelização, o crescimento de igrejas, a liderança e em outros de ordem primária na vida eclesiástica. A suposta semelhança com a doutrina bíblica e o aparente cumprimento das principais ordenanças da Palavra, levam muitos a quase canonizarem tais ensinamentos, além de revolucionarem sua grei usando esta doutrina por base.
Ao olhar para a Teologia Paulina, não vejo espaço para tais práticas comuns no contexto da Teologia dos Resultados e, ao compara-las, posso pontuar a existência de um grande abismo entre uma e outra.
Dois pontos preponderantes desta doutrina contemporânea são a escolha de um indivíduo por sua “combinação” com a visão do grupo e por sua “capacidade”. Se fosse por estes dois pontos, muitos dos primeiros crentes, dentre eles os próprios apóstolos, estariam de fora do rol de membros de nossas congregações. Em contrapartida a isso, vemos nos escritos de Paulo que a “dependência” e não a “capacidade” constitui-se o fundamento de um ministério bem sucedido. Que se dirá então da base tríplice onde tais líderes se apóiam: a afirmação no que são bons, a predominância do mais forte e o perfil empresarial. Todos pontos totalmente escusos da Teologia de Paulo que se fundamenta no “…quando sou fraco é que sou forte…”, na predominância do mais humilde e n perfil relacional (“Lembre-se de quem o aprendeste…” e não “do que” aprendeste). Além do que, se Paulo fosse organizar um congresso hoje (o que já acho muito improvável) tenho certeza que o tema não seria “O Líder e Sua Visão” ou “A Visão Para Hoje” temas comuns atualmente, mas talvez fosse “O Espinho na Carne” ou “Aperfeiçoamento na Fraqueza”. Seus seminários não seriam para se adquirir novas ferramentas e visões mas para se ensinar as antigas práticas como a da oração, a do jejum e a da pregação expositiva.
Creio que Paulo não comprometeria a mensagem a verdade da cruz só para contabilizar mais mãos levantadas que dizem que aceitam um Jesus que não conhecem, mas continuaria com o discurso da busca incansável pela plenitude da varonilidade, do negar-se a si mesmo e da perseguição para os que querem viver piedosamente. Paulo não tinha uma mentalidade aglutinadora e curralista, mas pessoal comunitária. Basta lermos suas introduções e suas despedidas cheias de carinho e pessoalidade, além de suas preocupações com comunidades que ele ainda sequer havia conhecido pessoalmente.
Isso tudo nos leva a um grande sentimento de egoísmo, busca de grandeza e confusão. Se fôssemos mais iguais a Paulo e se vivêssemos sua Teologia (“…sede meus imitadores como eu sou de Cristo…”), o “resultado” tão cegamente almejado seria bem diferente. Passaria de uma busca do concreto a uma contemplação do sobrenatural, de um apelo material ao anseio pelo espiritual, de uma irreal expectativa a uma concreta gratidão.
Fabricio Cunha (em 2002)
Um texto meu, uma canção do Gérson Borges.
Ainda bem que está chovendo,
Poderei esconder as lágrimas que teimam em cair.
Ainda bem que está chovendo,
E o solo árido terá esperança de novo.
Ainda bem que está chovendo,
E as águas que caem levarão para longe o choro,
Lavarão com cuidado a alma,
Limparão com coragem o pó.
Ainda bem que está chovendo,
Pois chuva é sinal de esperança.
Ainda bem que está chovendo,
E que traga do céu boas notícias,
E que as espalhem sobre a terra,
E que deságue o bem, ainda bem
Que está chovendo.
Fabricio Cunha
Muitas igrejas fazem com que as pessoas vivam em função delas.
Geram indivíduos tímidos em relação à vida, dependentes em relação à fé e confusos em relação a si mesmos.
A Igreja existe para viver em função das pessoas, gerando pessoas autônomas que sabem viver a vida como um todo de um jeito cristão.
Acho que é isso…
Fabricio Cunha
Disseram-me que o ateísmo está crescendo.
Fiquei a pensar… Quem quer o mundo oco e solitário dos ateus?
Não eu!
Eu quero o mundo povoado dos cristãos, dos judeus, dos muçulmanos, dos animistas…
Quero um mundo onde a gente não esteja só.
Um mundo com anjos de pé e caídos.
De entidades, de elfos, de mística, de mágica, de mistérios…
Quero o mundo onde os tambores invoquem.
Onde a multidão de línguas estranhas dos pentecostais façam os seres da escuridão retroceder.
Quero o mundo que produziu Beethoven que, surdo, dizia ouvir a música que Deus queria escutar, a quem aplaudiu na nona.
Que produziu Shakespeare, que disse que havia mais entre o céu e a terra, do que supõe a nossa vã filosofia, e que valia morrer por amor.
Que desafiou Mozart a zombar de Deus enquanto, qual o profeta Balaão, só conseguia emitir os sons que boca de Deus entoa!
Quero o encanto catártico de Haendell gritando ALELUIA! de forma arrebatadora!
A beleza de Bach nos fazendo ver a paz da Família Eterna.
Quero mundo das lindas e majestosas catedrais e dos pregadores das praças, das esquinas, dos caminhos…
Da riqueza sonora profunda dos cantos gregorianos e dos vociferantes pregadores: convocando os homens a mudar e o Espírito Santo a se levantar contra o mal.
Quero o mundo que faça um ser humano, diante a pior das borrascas, ver o seu salvador andando sobre o mar, anunciando a possibilidade.
Aquele em que o guerreiro, diante da incerteza, se ajoelha perante o Eterno e se levanta com um brilho nos olhos, certo de que tem uma missão, um motivo para brandir a espada, porque se há de correr o sangue humano, tem de haver uma razão, que dando significado a vida o faça não temer a morte.
Um mundo de poetas e romancistas, que fazem a morte gerar vida, que contam histórias porque, em meio ao mais insano, há algo para contar, e se há o que contar, então significa; e se há como contar, então há um significante anterior, de modo que, por mais que cada leitor possa, de alguma maneira, reinventar, ninguém consegue negar que leu e, se leu, podia ser lido.
Quero a fé que faz uma menina entrar numa das melhores faculdades do pais, sonhando que, um dia, tudo o que sabe ajudará um ser desprovido de tudo, num dos miseráveis cantões do planeta, a sorrir com esperança!
Quero a loucura dos missionários que abandonam tudo no presente, certos de que levarão milhares a viver o futuro.
Quem quer o socialismo frio do ateus?
Eu quero o socialismo dos crentes que, em meio à marcha dos trabalhadores e, diante do impasse do confronto com as forças do estabelecido, grita ao megafone: companheiros, avancemos! Deus está do nosso lado!
Da ciência não quero as equações, quero o grito de “Eureka!”, onde o cálculo se mistura com a revelação.
Da matemática quero a música, a certeza de que há sons no universo, que não só os podemos cantar, mas que há quem nos ouve.
Que ouviremos a grande e última trombeta, que reunirá toda a criação para o canto da redenção.
Eu não quero capitalismo nenhum, mas prefiro o dos seres humanos que acreditavam que o trabalho é um culto ao Criador e que o seu produto tinha de gerar um mercado a serviço do bem.
Quem quer o capitalismo consumista dos ateus, que reduz a vida ao aqui e agora, e transforma todos em desesperados que, pensando que não sobrará para eles, correm para acumular para o nada?
Os ateus dizem que evoluímos, mas que não vamos para lugar nenhum; que a ciência pode tudo; que verdade é a palavra dos vencedores; que os mais fortes sobreviverão, e que é o direito natural deles.
Não! Mil vezes não!
Quero o mundo onde os fracos tenham direito ao Reino; onde os mansos herdarão a terra; onde os que choram serão consolados; onde os que têm fome e sede de justiça serão fartos; onde os que crêem na justiça estejam prontos a morrer por ela; onde os mortos ressuscitarão.
Quem quer um mundo explicado, onde tudo é virtude ou falha de um neuro-transmissor qualquer?
Quero um mundo onde a fé , o amor e a paixão curem, mudem histórias e construam caminhos! Onde os artistas tenham o que registrar!
Um mundo onde o sol nasça e se ponha, onde as estrelas, polvilhando o infinito, apontem um caminho, falem da esperança de uma grande e decisiva família, e que qualquer ser humano ao ver isso, não se envergonhe de falar: maravilha! Um Deus fez isto!
Mas não quero a teologia técnica…
Quero o Deus apaixonado dos cristãos, que abandona sua Glória e se faz gente, trazendo a divindade para a humanidade e, ressuscitado, ao voltar, leva a humanidade para a divindade!
Quero o Deus inquieto de Israel, o pai dos judeus, com quem é possível lutar.
Quero do Deus que se permite ser detido por um Jacó.
Quero o Deus chorão de Jesus de Nazaré, que mesmo a gente tendo brigado com Ele, nunca conseguiu brigar conosco.
O Deus Pai, Mãe e Filho que repartiu conosco o privilégio de ser!
Quero o mundo do medo do desconhecido, e do maravilhar-se com o desconhecido: o mundo do encanto.
Como disse o pai da filosofia moderna, o que se descobre ser ao pensar, precisa de um mundo para aterrissar, precisa que haja alguém que faça pensar valer a pena, alguém que, ao fim, é da onde se pensa, e se ele não existe, então nada existe, porque o que pensa não tem como pensar a partir de si.
Quero o mundo que ri da finitude; que desdenha das limitações; que resiste ao sofrimento; que olha para o infinito sabendo que nossa existência não é determinada pela morte ou por nossas impossibilidades; que não somos frutos de um acidente.
Quero mundo que se sustenta na fé de que ressuscitaremos, de que brilharemos como o sol ao meio dia; de que vale a pena lutar pelo bem; de que vale a pena existir!
Oração de Friedrich Nietzsche, traduzida e interpretada por Leonardo Boff: