#JuventudeeMissãoIntegral – De Lausanne à Cape Town (3)

Por ocasião da realização do Terceiro Congresso Internacional de Evangelização Mundial, convocado pelo Comitê de Lausanne, que acontecerá na Cidade do Cabo, África do Sul, no mês de outubro, escreverei alguns artigos que dizem respeito à caminhada de construção de uma identidade Evangelical internacional (no que diz respeito ao seu recorte contemporâneo), tendo como marco principal o Congresso de Lausanne, que aconteceu na Suíça, em 1974.

O tema geral será: “De Lausanne a Cape Town”.

A idéia é avaliarmos os antencedentes históricos, o próprio Congresso de Lausanne e seus desdobramentos principais, terminando com uma avaliação do “Movimento de Lausanne” na América Latina e Brasil.

Nesse terceiro artigo da série, adoto, ainda, como marco principal dos antecedentes históricos mais distantes e mais imediatos, o Congresso do Panamá, ocorrido no ano de 1916, que deflagrou o processo de construção de uma identidade missional na América Latina.

O CONGRESSO DE AÇÃO CRISTÃ NA AMÉRICA LATINA[1]

1. Razão

Como dito acima, a América Latina não teve o espaço devido, ou melhor, espaço institucional nenhum nas discussões acerca dos rumos missionários para o mundo por considerarem-na um continente cristianizado por conta da atuação e hegemonia católica. Os delegados ligados à América Latina que se reuniram em Edimburgo, organizaram, junto a mais alguns líderes, uma consulta em Nova Iorque, no ano de 1913, onde discutiram a necessidade de um canal de diálogo entre os missionários que atuavam no campo latino americano, sendo sua maioria norte-americanos. Já em 1914 o CCLA reunia mais de trinta organizações missionárias norte-americanas e mantinha contato com um comitê europeu que tinha o mesmo objetivo.

A necessidade de um congresso que tivesse a América Latina como objeto de discussão se mostrava cada vez mais patente. Além do fator motivador mais importante, descrito acima, dois foram os motivos principais para tal: o fato de que muitas das missões que atuavam na América Latina não tinham relação alguma com movimento maiores, por serem frutos de iniciativas independentes, o que dificultava o diálogo ecumênico e porque as denominações históricas tinham pouco conhecimento das realidades e necessidades do continente, tanto para atuarem como para ouvirem na perspectiva da missão.

2. Construção

Diferentemente de Edimburgo, que teve em seu processo de construção, principalmente líderes eclesiástios, o Congresso do Panamá foi construído por líderes de missões com predominância norte-americana, o que também, apesar do tema tratar de outros países, um caráter transcultural. Com a ênfase demasiada no “alcançar a América Latina”, desconsiderou-se o fato de que já haviam denominações centenárias atuando em seu solo, isto é, todo o arcabouço de gestão (logística) e também de teoria (conceituação) foram norte-americanos. Em suma o congresso só aconteceu em solo latino-americano, com foto na América Latina mas com toda metodologia vertical. Os documentos preparatórios, por exemplo, foram os mesmos de Edimburgo, sem considerar-se a grande diferença dos contextos africano e oriental para a realidade latina. Tudo isso deveu-se muito ao fato de que o grande propósito do congresso foi o de motivar o envio de mais missionários para a América Latina, principalmente para a evangelização das elites culturais, uma vez que acreditavam que o conhecimento produziria libertação e, com isso, caminharam no processo inverso ao aplicado principalmente pelos autóctones que, de alguma forma, aplicavam o processo inverso, o de evangelizar as bases em vistas da capilarização, numa sociedade hegemonicamente pobre. Sobre isso, Nelson e Kessler destacam:

“As missões das denominações históricas, que em termos gerais adotaram as recomendações desse congresso, assumiram imediatamente uma imagem de classe média na América Latina. Desenvolveram, é verdade, um interesse social, porém dirigido em busca dos pobres em vez de ser um interesse que tomava os pobres como ponto de partida, como havia sido o caso quando essas missões começaram seu trabalho na América Latina”.[2]

Segue um trecho da carta convocatória do Congresso do Panamá:

“Todas as comunhões e organizações que aceitam Jesus Cristo como divino Salvador e Senhor , e as Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, como a Palavra de Deus revelada e cujo propósito é lograr que a vontade de Cristo prevaleça na América Latina, estão cordialmente convidadas a participar do Congresso do Panamá e serão bem vindas de coração”.[3]

3. Descrição

O Congresso aconteceu entre os dias 10 e 20 de fevereiro de 1916, no hotel Tívoli, na Zona do Canal. Panamá foi o país escolhido por conta do recém inaugurado Canal do Panamá, que tinha como simbolismo o fato de que lá era uma das passagens que davam acesso a toda América Latina. O presidente do congresso foi o uruguaio Eduardo Monteverde, ligado à Associação Cristã de Moços de seu país. Entretanto os que, de fato, dirigiram o congresso foram dois conhecidos americanos, Robert Speer e John Mott.

Participaram do congresso 481 pessoas, sendo 304 delegados (159 de países de fora da AL[4] e 145 com atuação em algum país latino americano), 74 visitantes oficialmente convidados e mais alguns participantes panamenhos diários. A constatação interessante se dá ao fato de que, dos 145 delegados com atuação na AL, somente 21 eram nascidos no continente, o que nos leva a considerar, com segurança, que o protagonismo hegemônico no Congresso foi o dos executivos das missões estrangeiras.

Mesmo os documentos de ótimo conteúdo que tinham como tema: exploração e ocupação, mensagem e método, educação, publicações, trabalho feminino, a igreja e o campo, as bases no lugar de origem e cooperação e promoção da unidade[5], estavam, em sua maioria, somente em língua inglesa, com poucas traduções para o espanhol e o português. Com esse material, foi publicado um documento final em três volumes, chamado “Congresso do Panamá de 1916”, pela Movimento Missionário de Educação, compêndio que é uma excelente fonte histórica do movimento protestante na AL.

Três brasileiros participaram do Congresso do Panamá, Álvaro Reis, um de seus idealizadores, Eduardo Carlos Pereira e Erasmo Braga, que escreveu o livro “Pan-Americanismo: aspecto religioso”, entusiasmado com a cooperação evangélica.[6]

4. Influências

a. Imediatas

A primeira grande influência deu-se à partir do fato de que não havia acontecido nenhum esforço na direção de um trabalho mais unificado, programado, unânime, na América Latina. Na verdade, nem se tinha idéia do que se estava fazendo de forma mais abrangente no campo latino americano. Traçar um quadro geral do labor protestante missionário no continente na direção da maximização da atuação, já foi um ganho significativo.

Além disso estabeleceu-se um documento com quatro metas imediatas à partir do congresso, que, de certa forma, foram frustrantes pela inaplicabilidade e falta de contextualização de ações tão complexas num momento tão inicial. São elas:

  • O esforço por evangelizar as classes cultas;
  • O desejo de unificar a educação teológica;
  • O Intento de dar uma dimensão social ao trabalho missionário na AL;
  • O esforço por promover a unidade protestante.

b. Posteriores

Talvez o fator mais importante foi o de que o Congresso do Panamá fez parte de um processo de construção pedagógico ao qual ele deu início, mas não foi o único acontecimento. Seguiram-se, depois dele, o Congresso da Obra Cristã na América Latina – Montevidéu – 1925, o Congresso Evangélico Hispânico Americano – Havana – 1929 e a primeira, de uma série de uma série de três, Conferência Evangélica Latino Americana – Buenos Aires – 1949, tudo isso, parte de uma caminhada na direção da formação de uma identidade protestante latino-americana. Como diz Jean Bastian:

“O primeiro resultado do Congresso do Panamá foi o novo impulso que se deu ao movimento protestante”.[7]

Isso se deu devido a permanência do CCLA como órgão, comitê, responsável pela gestão inicial dessa caminhada, o que o tornou um comitê com função maior do que a de organizar um simples congresso.

Deflagrou o florescer de uma caminhada na direção da construção de uma identidade protestante menos pulverizada e do vislumbre da possibilidade de projetos mais cooperativos, baseados numa consciência missionária, mesmo que sem lastro de conhecimento contextual. O interesse posterior mais patente, na verdade, não teve relação direta com a AL, pois foi o de despertar o interesse norte-americano pelo campo latino. Erasmo Braga diz:

“Com resultados paralelos aos que têm obtido a propaganda da Uniào Pan-Americana e outras instituições para despertar nos EUA mais interesse pela AL, a propaganda e os trabalhos de organização do Congresso do Panamá despertam enorme interesse em vasta zona da opinião norte-americana. A imprensa, as escolas e as igrejas estão preocupadas com estudar os latino-americanos e suas terras. ”[8]

“O objetivo prático do congresso foi despertar o interesse e levantar contribuição pessoal e financeira para a obra na AL.”[9]

E foi o que aconteceu. A importância do trabalho cooperativo e das novas forças levantadas à partir da inquietação norte-americana baseadas nas novas publicações sobre a AL e a cursos específicos nas escolas de missões fez com que conhecessem melhor a realidade latina, o que fez com que o CCLA tomasse um caráter permanente.

Como fator local positivo, o Congresso revitalizou a esperança dos protestantes residentes na AL, deu aos autóctones o sentimento de que são importantes para o cenário mundial, compreendidos e de que não estão sozinhos, dando aos protestantes líderes nacionais a confiança em si mesmos para continuarem no labor missionário.

Apesar dos missionários nacionais já estarem na AL, de denominações históricas já atuarem no contexto latino-americano e de já haver lampejos de uma identidade protestante (no caso do Brasil, por exemplo, Antônio Gouvêa de Mendonça considera 1859 como o ano que dá o início da construção de uma identidade protestante[10]), considera-se o Congresso do Panamá como o primeiro passo de um ciclo de discussão  missiológica latino-americana.

  • Montevidéu – 1925 – Congresso da Obra Cristã na América do Sul

Aconteceu entre os dias 29 de março e 08 de abril, em Montevidéu. Uruguai foi o país escolhido porque, dentre os outros da América do Sul, era dos que tinha um grupo considerável de protestantes, que erigiram sua primeira igreja em 1840.

Esse congresso acontece como desdobramento da iniciativa do CCLA, de estabelecer uma caminhada na direção da construção de uma identidade protestante na América Latina. Por isso, 09 anos depois do Panamá, precisavam reavaliar no que tinham logrado êxito desde o congresso de 1916 e como gestariam esse encontro já seria um ponto fundamental de avaliação dessa caminhada.

O presidente do Congresso foi o brasileiro Erasmo Braga, mas a direção executiva ainda foi norte americana, com os missionários Robert Speer e Samuel Inman. Todavia, no que diz respeito à participação, houve alguma evolução em relação ao congresso de 1916. Foi composto por 165 delegados, sendo 45 latino-americanos natos, o que representava 27% da participação que, no Panamá, foi de 7%. Mesmo com pouca participação, os latinos fizeram, bem a seu estilo, muito barulho, principalmente por terem colocado em pauta a tensão latente que existia na relação entre as igrejas nacionais, quase sem liberdade de atuação e administração, e as “igrejas-mães”que, por enviarem os recursos, ditavam toda a cartilha de operação das filhas.

Dois dos pontos mais importantes de Montevidéu foram, em primeiro lugar, a ênfase que se deu à educação, sendo que, na semana anterior ao congresso, aconteceu a Conferência Educacional, que lançou as bases para o projeto da Comissão Evangélica Latino-Americana de Educação Cristã (Celadec), organizada em 1961. O outro ponto foi a participação de um jovem missionário escocês que trabalhava no Peru, John Mackay que, com sua jornada, influenciaria não só o protestantismo latino-americano, como o movimento missionário internacional.

O Congresso de Montevidéu deu maior legitimidade no processo de construção da identidade protestante latino americana por aumentar a participação dos latinos e por dar espaço a uma primeira discussão em relação ao relacionamento das igrejas nacionais com as igrejas-mãe. Foi bem sucedido enquanto ponte entre o Panamá, 1916 e Havana, 1929.

  • Havana – 1929 – Congresso Evangélico Hispano-Americano de Havana

Aconteceu entre os dias 20 e 30 de junho, em Havana. Cuba acabou sendo a sede de um congresso que, originalmente, seria no México mas não ocorreu lá por conta do momento cristão desfavorável.

Esse congresso representa um momento muito importante na caminhada de construção de uma identidade protestante, principalmente porque encerra um processo que iniciou-se no Panamá, 1916 e abre as discussões para a realização de uma nova sequência de encontros chamados CELA’s (Conferências Evangélicas Latino Americanas).

Nesse congresso o protagonismo, enfim, foi latino americano e, dos 200 participantes, 118 eram latinos natos. No início do congresso, uma comissão de 25 pessoas foi eleita para dirigir os trabalhos, sendo que todos eram latino americanos e dentre eles havia uma mulher. O presidente do congresso foi o metodista mexicano Gonzalo Báez Camargo, então com somente 30 anos.

O congresso trabalhou seu conteúdo dividido em quatro áreas: solidariedade evangélica, educação, ação social e literatura. Entretanto a discussão, em princípio latente por não estar presente em nenhuma comissão, voltou à baila como o grande tema “de corredor” que tomou circunstância: o relacionamento entre as igrejas-mãe e as igrejas-filhas (nacionais) que, de forma menor, traduzia a dificuldade de relacionamento entre os pastores locais, ávidos por implantar seus projetos e os missionários internacionais que, como eram os subsidiadores das igrejas locais, com dinheiro de fora, achavam os pastores nacionais imaturos, despreparados para assumir o protagonismo das igrejas e com espírito revoltado e revolucionário. Apesar desse desentendimento, ficou evidente que a independência de governo e financeira, era fundamental para o amadurecimento e crescimento das igrejas locais, sem comprometer-se o espírito de gratidão e unidade da igreja universal.

De todos os desdobramentos, o mais significativo, apesar de utópico, foi levar em consideração a proposta do preletor cubano Luis Alonso de formar-se uma Federação Internacional Evangélica, composta por comitês evangélicos nacionais, o que sinalizava, de fato, o princípio da institucionalização de uma unidade mais macro. Tal proposta, aprovada por unanimidade e levado à cabo por uma comissão especial, só tomou forma à partir da primeira Conferência Evangélica Latino Americana.

Conclusão

A influência no modus operandi missionário da qual a América Latina foi alvo, vem de muito tempo na história, desde o Paradigma Iluminista. Os avivamentos, o furor pela urgência missionária, principalmente norte-americana, fizeram com que se tentasse organizar melhor a gestão dos projetos de missões, visando a maximização de sua atuação. Com isso foram convocados encontros tanto para essa discussão, quanto para a melhor reflexão dessa prática. A América Latina acabou esquecida, não só como protagonista mas  também como alvo. Com a inquietação de um grupo, por conta desse esquecimento, iniciou-se um movimento na direção da AL, principalmente como campo missionário. Isso foi o embrião para o início da discussão de uma missiologia latino-americana e de uma identidade protestante para o continente.

O Congresso do Panamá é um ponto fundamental nessa caminhada, pois coloca a América Latina no centro da discussão missionária internacional e deflagra o processo de construção de uma missiologia latino-americana.


[1] Usarei a nomenclatura usual: “Congresso do Panamá”

[2] NELSON, Wilton M. e KESSLER, Juan. 1978. Pastoralia no. 2. Cit. Orlando Costas. Pág.: 12

[3] NETO. 2002. O Novo Rosto da Missão. Cit.: Nelson e Kessler. Pág,: 92

[4] Passarei a usar a sigla para América Latina.

[5] OAXTEPEC. 1978. 1980. CLAI. Pág.: 13

[6] MATOS, Alderi Souza de. 2006. Ultimato, Ed. 303. Erasmo Braga: um líder singular no protestantismo brasileiro.

[7] BASTIAN, Jena-Pierre. 1994. Protestantismo y Modernidad Latino Americana. Pág.: 153.

[8] BRAGA, Erasmo. 1916. Pan-americanismo: aspecto religioso. Pág.: 185.

[9] IDEM. Pág.: 186.

[10] MENDONÇA, Antônio G. de. 1984. O Celeste Porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. Pág.: 162

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  • DORI MARCO says:
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