#Histórias,nossashistórias – A VELA QUE SE APAGOU

Texto em homenagem à minha avó Alice, falecida há um ano.

A VELA QUE SE APAGOU

Uma vela não foi feita para se apagar. Foi feita para brilhar, para trazer luz onde há escuridão.  Mas as velas são feitas de cera e cera se esvai com o tempo.

Dona Alice viveu 89 anos. Vivi 31 ao seu lado. Quando nasci, morávamos junto com ela. Eram casas conjugadas, que dividiam praticamente o mesmo quintal. Ali aprendi a plantar e cortar cana-de-açúcar com meu pai, a limpar um terreno, a pegar jabuticaba no pé que tinha entre minha casa e a dela. Brincava na terra, corria nos quintais. Se eu chorasse, Dona Alice aparecia pra perguntar o que era, se sorrisse alto, ela sorria junto, se pedisse uma bolacha, ganhava duas. No fim da tarde subíamos juntos para ver as pessoas na rua, pra ver o lixeiro passar. Eu conversava com todos e ela me segurava sentado na mureta que dava pra rua.

Cresci. Tornei-me homem, pai, marido, pastor e, com a consciência da idade, fui percebendo o quanto essa mulher, que nem o nome sabia escrever, era importante em minha vida. Minha gênese é muito anterior a mim mesmo. Eu começo nela. Não podia ter com ela conversas complexas, mas poderia ouvir dela sobre as coisas mais importantes da vida, como não ouviria de ninguém. Sobre Deus, amor, oração, caráter, presença, aprende-se sem a necessidade das palavras ou das letras.

Cresci, mas sempre fui neto. Ao contrário de muitos de minha geração, não tenho dívidas de amor, principalmente com ela. Fiz sempre questão de deixar claro o quanto a amava e o quanto ela representa para mim e minha família. Sua vida é o chão de minha história.

Sextas-feiras têm o dom de serem muito alegres ou muito tristes. É o dia que potencializa celebrações ou lamentos.  Foi assim para mim na última sexta. Recebi o telefonema de minha irmã dizendo que a vó tinha “partido”. Parei onde estava e minha cabeça recebeu uma avalanche de lembranças que me remeteram ao tempo de ontem. Não queria ir para São José vê-la como sei que a veria, mas fui. Estava com uma roupa nova, que usara no casamento de minha irmã, com flores e gente simples à sua volta. Foi sepultada num lugar também muito simples, como expressão de como foi sua vida inteira.

Saí de lá e fui para sua casa. Ai que dor, que coração apertado. Ela não estava na cadeira na quina da porta, nem sentada no banquinho “esquentando as costas no sol”, como dizia. Ai vó Alice, que aperto no coração, que vazio, que saudade. Saudade é o amor que fica, mas a quem chamarei de minha “vó”? Sentei em sua cama e senti o teu cheiro, mas não ouvi tua voz. Sentei-me em tua cadeira e olhei para o horizonte que foi tua paisagem por tanto tempo. Deu vontade de comer suspiro. Peguei o pote no armário, mas só tinha farelos. Pensei em como aquele lugar era vazio sem você. Os suspiros já não são tão doces, nem o sorvete do final da tarde. Pensei que não poder mais ouvir tua voz é um desalento. Fiquei profundamente triste.

Mas o céu estava teimosamente mais azul. Fiquei confuso por um instante. Por que o céu não perdera a cor? Não se acinzentara? Foi quanto me lembrei de teus olhos. Eles realçaram a cor do céu. Podem estar brilhando na eternidade, mas continuam a brilhar, vó

Ah vó Alice, a senhora não morreu. Vive em mim, vive nos meus filhos, viverá nos filhos dos meus filhos.

Te amo.

3 Comentários "#Histórias,nossashistórias – A VELA QUE SE APAGOU"

  • Fernanda says:
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