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Histórias, Nossas Histórias…
Seu Argemiro, alguém de quem o mundo não é digno
Seu Argemiro, 69 anos. Auxiliar de faxina, negro, pobre, semi-analfabeto. É do tipo de gente que existe, mas a gente não vê. Gente invisível. Para muitos de nós, coisa, a extensão de uma vassoura.
Numa de nossas idas ao Borel, não pudemos subir por conta de uma operação policial. Ficamos frustrados a princípio, mas depois nos reunimos para um tempo de louvor com músicas e oração. Foi nesse tempo que ouvimos a Analzira contar a história de uma missionária do Radical África. Há uns três anos, no final do treinamento, uma das líderes do projeto lamentou num dos cultos a impossibilidade de continuar no processo e ser enviada ao campo missionário. Havia emprestado o “nome” para alguns familiares que, por falta de pagamento, comprometeram-na junto aos serviços de restrição de crédito. Por isso ela sentia-se incapaz de ser enviada ao campo com tal pendência. Faltava menos de um mês para a viagem e todos os “Radicais” lamentaram muito. Reuniram-se para orar e chorar junto com a amiga. No meio da reunião o Seu Argemiro entrou sem pedir. Analzira e os Radicais não entenderam. “Estou triste. Preciso falar com vocês agora”, disse ele. Constrangidos, deram-lhe a palavra. “Desde o começo dos ‘Radicais’ pedi que me enviassem um boleto pra investir na vida de um deles. Ninguém me enviou. Estou aqui para trazer esse envelope, fruto do meu trabalho, que juntei para investir na vida de um de vocês. Aqui está!” Era exatamente o valor que a menina precisava para pagar suas pendências e poder ir para o campo.
Essa história nos foi contada em meio a um clima de temor e tremor. Gerou-nos um santo constrangimento que nos impeliu à oração. Quando abrimos nossos olhos, ele estava sentado numa cadeirinha perto da porta. Tinha sido trazido pela Silvana, que o havia conhecido ontem quando ele a procurou para dizer da alegria em ver tantos jovens felizes, servindo ao Senhor. Ele nos cantou um hino, orou por nós. Estávamos, quase todos, chorando, com a sensação de acolhimento e constrangimento, que só a presença do Espírito nos causa. O Senhor estava ali e “tiramos as sandálias dos pés”.
Essa manhã ficará marcada nas vidas de muitos de nós por muito tempo. Essa história está impressa em nossos corações.
Seu Argemiro, 69 anos. Auxiliar de faxina, negro, pobre, semi-analfabeto.
Um homem do qual o mundo não é digno!
