Da Morte Para a Vida


O Antigo Testamento é a antessala do Novo.  É como se, no Antigo, assistíssemos a um filme em preto e branco e no Novo, em cores.

A primeira celebração de Pessach, nome hebraico da Páscoa, ocorreu quando Deus enviou as dez pragas sobre o povo do Egito (Êxodo 7 a 12). Antes da décima praga, Moisés foi instruído a pedir para que cada família sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogênitos (Êxodo 12).

Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas. À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os primogênitos dos animais até os primogênitos da casa do Faraó. Então o Faraó aceitou liberar o povo de Israel para adoração no deserto, o que levou ao Êxodo.

Como recordação desta liberação, foi instituído para todas as gerações a festa da Pessach, a Páscoa, a passagem da escravidão para a liberdade.

No Novo Testamento, o relato mais impressionante de todos é o que descreve mais uma vez um sacrifício, mas, agora, o do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, o cordeiro perfeito.

Deus, desde o Antigo Testamento, mostra seu ímpeto relacional ao querer constantemente revelar-se ao homem. Institui uma série de ritos e liturgias de modo que o humano consiga de alguma forma conhecer lampejos do sagrado. O humano, por sua vez, dá mais valor ao rito do que ao que ele significa, dá mais valor à festa do que ao que ela celebra, mais valor ao sacrifício do que ao que ele representa. Assim aconteceu também com a festa da Páscoa. Passou-se a enfatizar mais o sacrifício do cordeiro, do que o que ele representou: o preço da liberdade.

Jesus se encarna, se humaniza para, de uma vez por todas, cumprir pela última vez o rito do sacrifício do cordeiro para que, depois disso, toda pessoa entendesse o real sentido da páscoa, agora, mais do que a passagem da escravidão para a liberdade, A DA MORTE PARA A VIDA.

Portanto, o sacrifício de um cordeiro pascal, primogênito e perfeito era o símbolo de quanto custou a liberdade de um povo, um preço alto, mas pago por um outro alguém, para que se entendesse que receberam a liberdade de forma gratuita, mas ela custou o sangue de um cordeiro.  O povo deu mais valor ao símbolo do que ao que ele significava. A Páscoa em Israel virou uma festividade muitas vezes sem sentido e sem memória.

Então Jesus, o Deus encarnado, se apresenta na Páscoa não como o Deus a quem se deve um sacrifício, mas como o Cordeiro a ser sacrificado. Se a humanidade não entendeu o preço da liberdade que nos foi dada de presente pelo próprio Deus em troca da morte de um cordeiro, o sacrifício virou fim em si mesmo e não mais um símbolo pedagógico do alto custo da passagem da escravidão para a liberdade. Jesus vem para ser esse cordeiro e sacrificar-se de uma vez por todas, para que entendêssemos o valor real desse símbolo e, mais do que isso, seu preço.

O próprio Deus se faz gente e sacrifica-se para que toda gente não só tenha a oportunidade de passar da escravidão à liberdade, mas, agora, da morte para a vida e, pela grandeza e valor definitivos desse sacrifício, entendam que o Pai queria nos ensinar que o fim da Páscoa não era o sacrifício em si, mas a lição de que Ele nos quer perto, livres e vivendo a vida como ela deve ser vivida e por esse fim Ele pagaria o mais alto preço.

Tudo isso para termos a santa possibilidade de entendermos um pouco, agora em cores, não mais em preto e branco, da grandeza desse amor que, levado às últimas consequências, imolou o próprio Deus em favor da humanidade.

É Deus fazendo o caminho de vida e morte para nos abrir o caminho DA MORTE PARA A VIDA.

Fabricio Cunha


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