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#CapeTown2010 – Quinto Dia (22)
O DIA
MANHÃ
O texto sobre o qual refletimos hoje, foi o de Efésios 4. 1-16. Fazer isso em uma mesa, com o texto posto, tem sido uma experiência revigorante. Ouvir as impressões e os nuances hermenêuticos de cada um de meus companheiros, vindos de realidades e trabalhos tão diferentes, tem sido rico. Falamos sobre unidade e do quanto isso é uma prioridade deixada de lado em nossa realidade evangélica tão pulverizada. Pr. Ylídio acrescenta a beleza do ato criador de nosso Deus que diz “haja” para todas as coisas, mas quando vai fazer o homem, diz “façamos”. A unidade de nosso Deus trino é o paradigma para nossos relacionamentos interpessoais em qualquer instância.
A manhã parecia promissora com um texto como esse. O preletor da plenária principal é o britânico Vaugh Roberts, jovem, pastor da importante St. Ebbes Church em Oxford. O tema da unidade como prioridade para os evangélicos, logo foi tomando uma tonalidade fundamentalista, quando Roberts disse: “o amor une, mas a doutrina divide. É o preço da ortodoxia.” Seguiu criticando o histórico movimento ecumênico, demonstrando desconhecimento ou, no mínimo, descaso com a história do segmento mais progressista da igreja evangélica mundial, ligado ao Conselho Mundial de Igrejas. Parecia não poder piorar,quando ele proferiu uma sequência de declarações: “Só somos uma família em Cristo, com todos os ‘convertidos’ e não com todos. Nossa unidade é em Cristo e são bem vindos todos os que dele são. Todos colocam barreiras, nós inclusive. São bem vindos para além delas os que querem servir a Cristo”. Por mais que pareça um discurso cristocêntrico, soa-me mais como um discurso “amolador de facas”, que nos impele mais às restrições e à segmentação do que à inclusão pelo amor. Terminou conclamando todos à proclamação da palavra da verdade, principalmente aos jovens, pois acredita que num cenário relativista, a pregação da palavra da verdade, mesmo em meio às cisânias, deve ser a ferramenta de conscientização para os que vivem no engano.
Eu, se não fosse cristão, e o ouvisse falando as coisas que disse, do jeito que disse, não aceitaria o cristianismo como a expressão de minha espiritualidade. Isso não quer dizer que não dou valor à doutrina. Acho fundamental termos lastro doutrinário para a nossa prática ministerial missional. O que acreditamos, determina o modo como agimos. Esse é meu temor, pois percebo que pelos aplausos, pregações como essa agradam aos ouvintes. Parecem que estão sincronizados no que pensam e acreditam e, se isso é fato, nossa prática missional estará comprometida pelo fundamentalismo religioso, mesmo que latentemente escondido por afirmações aparentemente cristocêntricas mas que, no final das contas, mais nos divide e nos separa daqueles que precisam, mais do que ouvir, ver o testemunho de Cristo em nós.
Paul Eshleman foi o condutor do programa na segunda metade da manhã. Ele é o executivo, vice-presidente da Cruzada Estudantil, fundador do Projeto Filme Jesus e responsável pela área de estratégia de Evangelização Global do Comitê de Lausanne. Fiquei um tanto quanto ansioso por ouvir um homem que deveria ter tantas histórias para contar sobre evangelização e sobre estratégias para se difundir o pensamento cristão no globo. Ele começou seu tempo dizendo que estava trabalhando havia 04 anos num projeto estratégico de evangelização mundial, que teria lugar para a atuação de todos nós. Ele pediu que pegássemos uma tabela que haviam produzido como fruto de intenso trabalho. “Procure o seu país nessa tabela”. Encontrei o Brasil. “Agora, veja quais são os povos não alcançados que identificamos em seu país, ore por eles e peça ao Senhor uma estratégia para alcançá-los. Compartilhe a estratégia com o grupo”. Aquela tabela e uma outra eram os frutos desses 04 anos de trabalho. No Brasil, os povos não alcançados enumerados ali eram os surdos e a colônia japonesa e a melhor estratégia para evangelizá-los seria darmos um jeito de transmitirmos o Filme Jesus para eles. Senti-me envergonhado. Como aquele momento foi patético. Aquelas tabelas não valiam nada. Não teria coragem de apresentá-las nem numa aula de Escola Dominical. Pensei em sair mas fiquei, em respeito aos amigos do Pequeno Grupo. Uma abordagem fundamentalista e sectária, seguida por uma aula de colonialismo e catequese. Pensei, estão nos preparando para uma Cruzada contra os não cristão, especialmente os muçulmanos. Sairemos daqui ansiosos e aguerridos para alcançarmos as pessoas de outras religiões, para convertê-las ao nosso catecismo e unificarmos o mundo com a nossa fé. O que mais me impressionou, foi o fato de que os Estados Unidos não estavam na lista dos países que tinham algum tipo de população não alcançada. Ou estão cegos, ou seu padrão está totalmente distorcido, ou os dois…
Numa das mesas em que um dos brasileiros estava mediando, estava presente o ex-presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos. Sua reação ao debate na mesa foi: “estou acostumado com isso. Enquanto presidente, recebi duas ligações do presidente Bush. Na primeira ele pedia soldados para a invasão ao Iraque, na segunda ele pediu pastores, pois seu projeto era o de levar a democracia e o cristianismo para aquele país.”
TARDE
Ainda impactado negativamente pela manhã, reuni-me com alguns amigos para conversarmos sobre estratégias de trabalho com juventude para o Brasil. No retorno para o Centro de Convenções, uma menina nos pediu dinheiro insistentemente, o que é muito comum por aqui. Ficamos constrangidos com a situação e um de nós decidiu comprar-lhe alguma coisa. Perguntei para a menina o que ela queria comer, ao que fui repreendido por um integrante do grupo, que me disse: “você está comprando, você decidi o que ela irá comer”. Respondi: “quem determina a ação é a necessidade do que a recebe e não a vontade do que a oferta”. Logo pensei na gestão do Congresso. Na lógica comum, manda quem paga a conta. Foi assim que me senti hoje pela manhã, alguém, recebendo “goela abaixo” um conteúdo para formatar em mim uma vontade alheia à mim.
NOITE
Cada noite se celebra à partir da realidade de um continente. Hoje foi o dia da África. Como pode um continente ser tão rico em possibilidades e sofrer tanto. E como pode um continente sofrer tanto e ser tão alegre.
Imaginem as músicas, as coreografias, os abraços.
Pelo menos vou dormir com uma impressão final do dia, melhor do que a inicial.
Fabricio Cunha
