A Visão Sacrificial Cristã: uma verdade “não” absoluta


Desde que me tornei pai, o mistério da cruz/salvação alçou um status de incompreensão em minha vivência cristã. Como pode um Deus cujo caráter se baseia no amor, requerer de seu próprio filho um sacrifício que o satisfizesse e aplacasse sua ira? Tal equação não configuraria muito mais uma religião pagã do que o Cristianismo do Deus que não requer sacrifício mas, antes,  misericórdia (MT 9. 13)?

Deus, do alto de sua ira, requer do povo algum sacrifício, de forma que sua ira seja aplacada e o povo receba o seu favor. Sem sacrifício, sem favor, ira, gerando no povo uma dependência muito mais do sacrifício do que do favor.

Considerando o mínimo específico comum da formação das religiões, o fenômeno acima configura qualquer expressão religiosa e não especificamente o Cristianismo. Conforme Durkheim:

Todas as crenças religiosas conhecidas, sejam simples ou complexas, apresentam um mesmo caráter comum: supõem uma classificação das coisas, reais ou ideais, que os homens concebem, em duas classes, em dois gêneros opostos, designados geralmente por dois termos distintos que as palavras sagrado e profano traduzem bastante bem. A divisão do mundo em dois domínios que compreendem, um, tudo o que é sagrado, outro, tudo o que é profano, tal e o traço distinto do pensamento religioso.”[1]

 

É Deus, perdoando o povo pelo exercício do profano, em vistas de que, através de alguma oferenda ao sagrado, alcancem seu favor ao aplacar sua ira.

Coforme o Profo. Dr. Jung Mo Sung, “a Revelação só é ‘revelação’ quando configura algo novo, criativo”, e a tese panorâmica que vemos acima, de que uma religião se constitui à partir dessa equação ira (Deus) – sacrifício (povo)  – favor (Resultado) X  ira (D) – sem sacrifício (P)- maldição (R), pode descrever de forma sintética as bases para qualquer religião, mas não uma expressão de revelação.

Não é uma questão de crer ou compreender pois, se Deus é a gênese de todo mistério, não há como compreendê-lo ou como explicá-lo pelos sentidos ou pela inteligência.

Todavia esses são os instrumentos que temos para tal e em relação à questão do sacrifício, o ponto não é fé ou compreensão mas coerência com a “mente bíblica” que nos revela de forma macro o caráter do Deus cristão.

 

Anselmo da Cantuária e o Sacrifício Expiatório

Muito panoramicamente, o argumento é o seguinte: Deus, ser espiritual perfeito, é infringido pela desobediência humana no ato do pecado e requer reparação, uma vez que o ser perfeito não pode deixar que a criatura imperfeita o infrinja e continue sua existência sem nenhum tipo de reparação pois, caso as coisas se dessem dessa forma, a criatura teria mais poder e autonomia diante dos postulados do Criador do que o próprio Criador. O paradoxo se dá na medida em que o Criador exige uma reparação que não pode ser efetiva se partir da criatura. Como poderia um ser eterno ser infringido por sua criatura e não exigir reparação por isso. Como poderia uma criatura reparar de forma perfeita e eterna seu erro, sendo ela “criatura”.

A encarnação do próprio Deus se dá, então, como forma de reparar o erro da criatura através de um sacrifício expiatório de um ser perfeitamente humano e perfeitamente divino. Portanto o Cristo já nasce com a incumbência de morrer no lugar da criatura e, assim, cumprir de forma perfeita, pois ele é perfeitamente humano e perfeitamente divino, o que foi requerido por Deus como ato de reparação da infração humana.

Sendo assim, Cristo nasce para morrer. Sua principal missão é a morte expiatória que restabelece a ordem depois do caos do pecado da desobediência. E somente Ele, Jesus Cristo, Deus, poderia oferecer um sacrifício que satisfizesse a expectativa da divindade infringida, pois Ele mesmo é divino. Só um sujeito humano, com a plenitude dos predicados divinos, pode ressarcir uma dívida que é humana para um credor que é divino. Cristo reúne as duas plenitudes e é o único que pode solucionar tal pendência.

 

Uma Outra Possibilidade

A tese de São Anselmo da Cantuária é a base da teologia da expiação do cordeiro na igreja protestante reformada, o que já sugere status de cânon. Parece-me que um Deus que requer expiação pelo erro e reparação pelo pecado, não tem na misericórdia e graça os pilares de seu relacionamento com a criatura.

Por que então estabelece-se um cerimonial austero e rigoroso em todo o Antigo Testamento para que a criatura se relacione com a divindade cristã?

Penso que uma possibilidade seria demonstrar ao homem sua incapacidade de cumprir a lei de forma que esta servisse de metáfora para sua própria incapacidade de agradar ao Criador ou se achegar a Ele. É aqui que encontra-se a revelação cristã, a novidade criativa. Não é a criatura que se achega ao Criador, é ele que o faz. Os ritos são expressões da demonstração da vontade da divindade de se achegar à criatura e não instrumentos de aplacação de uma ira patente.

Deus estabelece um conjunto de normas para que o homem tenha a ciência do quão impossível seria cumpri-las e tivesse a compreensão básica de que a possibilidade de um relacionamento com a divindade não se daria pelo cumprimento da lei ou pelo exercício do rito, mas pela consciência de sua presença, que se torna plena com a encarnação do Filho e o envio do Espírito.

E por que a necessidade da encarnação, morte e ressurreição? O homem do Antigo Testamento dá mais valor ao rito e ao sacrifício do que à lição que está por detrás dele. Dá mais valor à moral da lei do que ao objetivo dela. A encarnação se dá como cume de um processo pedagógico que tem no próprio Deus o seu protagonista, isto é, como o homem não entende a função do rito e da lei, o Messias vem com o propósito de estabelecer um novo modelo e extinguir a necessidade tanto do rito quanto da observação da lei mosaica. Por isso, no sermão do Monte, ele inicia seu pensamento com “a lei diz, eu porém vos digo”. No novo modelo, o Cordeiro cumpre de forma perfeita o sacrifício, não porque Deus o requereu, mas porque o homem não entendeu o seu propósito. Sendo assim o Messias realiza o sacrifício pela última vez, como forma de dizer que , se o homem deu mais valor ao sacrifício do que ao que estava embutido nele, a saber, a demonstração de que a divindade queria se relacionar com a criatura, agora o sacrifício foi cumprido com plenitude e perfeição, pois foi feito pelo cordeiro Deus/homem que, inaugura ou relembra, a categoria na qual a divindade quer estabelecer uma dinâmica relacional com sua criatura.

Portanto o sacrifício do Cristo não é nem requerido nem, tampouco, contingente, mas um ato pedagógico que sabota a forma do homem relacionar-se com Deus e estabelece, ou restabelece o modelo que a própria divindade requer.

Se o sagrado é a manifestação daquilo que é o mais adequado ao humano, portanto, daquilo que, como pessoa, posso e devo ser, um Deus que requer ressarcimento ao preço do sacrifício de seu filho, parece mais uma divindade pagã do que o Deus amoroso, misericordioso e criativo cristão.

 

Considerações Finais

Desde a infância ouço a máxima de que “Deus é amor, mas Deus é justiça”. Em primeiro lugar a conjunção adversativa “mas” entre amor e justiça, pressupõe que uma coisa é contrária à outra, a primeira afirmação duvidosa. Amor e justiça são atributos que caminham na mesma direção. Talvez a palavra justiça traga embutida uma carga negativa, de punição, de ressalva e é isso mesmo que as pessoas querem dizer quando lançam mão da afirmação acima. O amor não é suficiente para exercer o governo quando se tem a expectativa de um Deus de poder, que pune o pecador que não lhe sacrifica mas abençoa aquele que o agrada o que nos mantém, de alguma forma, no controle das coisas, uma vez que nosso sacrifício é um instrumento regulador das ações de  Deus.  A afirmação bíblica é que “Deus é amor” e só. Esse é o problema, pois se Deus é amor, Ele perdoa e se perdoa, não cobra. Se Deus é amor, não ama por merecimento, sendo sua natureza básica o amor, ama simplesmente. Se ama, não exige sacrifício de nenhuma ordem. Se não exige sacrifício, a morte de Jesus não o foi, pois o Pai não a exigiu.

Qual o porquê essencial de sua morte? O amor. Tanto que sua missão baseia-se na afirmação encarnada de que o “Reino de Deus chegou” e que as “boas novas são para os pobres” e, ainda, que “toda autoridade lhe foi outorgada nos céus e na terra” e que deveríamos fazer discípulos baseados na autoridade daquele que veio “fazer novas todas as coisas”, isto é, dar a possibilidade e as diretrizes para um novo jeito de ser gente, um novo jeito de se estabelecer relações e um novo jeito de se conviver socialmente em todas as instâncias, inclusive a religiosa. Portanto sua missão baseia-se no amor do ato da encarnação e a última conseqüência disso foi sua morte, como prova de que não precisaríamos mais sacrificar, uma vez que os rituais de sacrifício do Antigo Testamento não eram para agradar a divindade ou aplacar sua ira, senão para entender que Ele estava no meio do povo.

Com isso a mensagem cristã exclui qualquer forma de sacrifício como um ato de se agradar uma divindade, em vistas de alcançar o seu favor. Isso é paganismo. A mensagem cristã é a do Deus que “não julga por usurpação o ser igual a Deus”, encarna-se e humilha-se em vistas de sentir a dor do outro e de demonstrar que a divindade veio até a criatura para demonstrar o quão está disposta a se relacionar com ela de graça, em amor.



[1] DURKHEIM, Émile. “As Formas da Religião”, p. 3

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