Jesus simplesmente é.
Não está preso à expectativa alheia.
É refém do amor.
Sabota o projeto que lhe é imposto.
Inaugura uma utopia.
Jesus frustra o projeto de poder que se espera de um Messias.
Ele é o “Deus inesperado”.
Esperávamos e ansiávamos pelo Deus de poder.
Recebemos a encarnação do amor.
Não há lugar para os dois na mesma essência.
Jesus é a encarnação do amor e a abdicação do poder.
Fabricio Cunha
abr 12
19
Enquanto calo meu canto,
Enquanto derramo meu pranto…
Enquanto me escondo num canto.
N’algum canto, me encanto.
Fabricio Cunha
Obrigado amigo do “esquerdo canto”, Gérson Borges.
NESSAS SEGUNDAS DE ABRIL
Por Gérson Borges
Nessas segundas de abril
Tenho me perguntado
Onde meu riso caiu
E eu poderia ter juntado
Cacos de vida no chão,
Pedaços de alegria
Que me fariam tão bem relembrados
Nessas segundas de abril.
Nessas segundas de abril
Tenho dormido cedo
Parece meio infantil
Mas Noite Escura mete medo
Tento sonhar com o Sol
- Sonhar é um exercício
Que me faria tão bem praticado
Nesssas segundas de abril.
Nessas segundas de abril
Tenho relido cartas,
Visto retratos de mim
Quando esperanças eram fartas
É, não nos falta aflição
Onde estarão os meus amigos?
Que bom seria poder abraçá-los
Nessas segundas de abril.
Nessas segundas de abril
Minha oração pequena
Tem sido ” Filho de Deus,
Mostra-me ainda vale a pena
Não desistir do que é bom
Pois o deserto não dura…”
Que bom seria poder encerrá-lo
Nessas segundas de abril.
Quando pequeno, lembro-me bem de um adesivo colado no vidro traseiro do Kadet preto de nossa família. Dizia o seguinte: “O Brasil é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso!”
Orávamos por líderes evangélicos envolvidos em posições estratégicas na política de forma que nos beneficiassem pelo fato de estarem no poder. Nos beneficiassem não, beneficiassem a fé cristã evangélica e os seus propósitos.
Lembro-me perfeitamente de orarmos contra a eleição de um presidente de esquerda e, depois, contra a do seu alternativo, o de direita, por ter-se declarado ateu. Cheguei a ir em reuniões onde dois candidatos evangélicos, um ao estado e outro à federação, faziam campanha para um conhecido ex-político acusado de vários crimes de corrupção pelo fato de que estavam lendo a Bíblia com ele.
Enfim… Desde a época da formação do povo de Israel ou, de forma mais patente, da época de Jesus Cristo, nossa expectativa e propósitos se baseiam mais na formação de uma sociedade cristã do que de uma mentalidade cristã para a sociedade como um todo.
Quem quer formar uma sociedade cristã, tem um projeto de poder. Queremos conquistar espaços estratégicos e pessoas estratégicas de forma que, ocupando tais posições, tenhamos os nossos interesses garantidos. Já vi, por exemplo, chefes evangélicos promoverem um funcionário só pelo fato de compartilharem da mesma fé e não por mérito. E quem de nós nunca ouviu a afirmação política: irmão vota em irmão”?! Mesmo que tais interesses sejam a priori bons, vivemos numa sociedade múltipla, formada por todo tipo de gente que precisa ter seus direitos e liberdade resguardadas assim como nós mesmos queremos que nossos direitos e liberdade o sejam. Assim, um projeto de tomada de poder não parece ser a melhor expressão que o corpo de Cristo pode tomar aqui na terra.
O projeto de Jesus de Nazaré, nada tem a ver com tomada de poder mas com a formação de uma nova mentalidade baseada numa outra cosmovisão, que têm o amor como fonte de motivação e propósito final. É por isso que em várias de suas palavras, Ele inverte as lógicas do pensamento corrente, propondo uma nova forma de ver, pensar e agir. Vemos isso, por exemplo, em todo Sermão do Monte onde os protagonistas são os fracos e irrelevantes; em sua conversa com a Samaritana, onde rompe todos os paradigmas sociais para declarar-se Messias a uma mulher; no “lava pés” ao quebrar a hierarquia e colocar-se de joelhos para servir aos discípulos; em Mt 25. 35 onde estabelece a solidariedade como caminho para a glória; em sua declaração messiânica em Lc 4. 18-19 onde, de tantos textos gloriosos sobre o Messias, escolhe um que enfatiza a sua identidade mais simples.
O projeto de Jesus não é de poder. Aliás, Filipenses 2. 5-11 nos diz claramente que seu projeto é abrir mão do poder, em vistas do amor. E Paulo começa esse texto dizendo: “seja a atitude de vocês a mesma de Cristo.”
Portanto, estamos comprometidos não em tomar a sociedade de assalto, implementando nela um projeto cristão “guela abaixo, mas em servir a sociedade, influenciando-a por meio de uma mentalidade que é contra-cultural tantas vezes, rejeitada outras tantas, mas que ganha legalidade não pelo poder que requer, mas pela humildade constrangedora e inspiradora de quem se ajoelha, toma a toalha e a bacia e lava os pés de toda gente, sem querer nada em troca.
Assim, quando perguntados porque somos, pensamos e agimos dessa forma, teremos legitimidade e espaço de fato para “darmos a razão de nossa fé”. Então essa revolução de amor ganhará mais e mais proporção, fazendo do Brasil não o país do Senhor Jesus, mas um país onde se vê mais e mais a face de Cristo no meio do povo.
Fabricio Cunha
Desde que me tornei pai, o mistério da cruz/salvação alçou um status de incompreensão em minha vivência cristã. Como pode um Deus cujo caráter se baseia no amor, requerer de seu próprio filho um sacrifício que o satisfizesse e aplacasse sua ira? Tal equação não configuraria muito mais uma religião pagã do que o Cristianismo do Deus que não requer sacrifício mas, antes, misericórdia (MT 9. 13)?
Deus, do alto de sua ira, requer do povo algum sacrifício, de forma que sua ira seja aplacada e o povo receba o seu favor. Sem sacrifício, sem favor, ira, gerando no povo uma dependência muito mais do sacrifício do que do favor.
Considerando o mínimo específico comum da formação das religiões, o fenômeno acima configura qualquer expressão religiosa e não especificamente o Cristianismo. Conforme Durkheim:
“Todas as crenças religiosas conhecidas, sejam simples ou complexas, apresentam um mesmo caráter comum: supõem uma classificação das coisas, reais ou ideais, que os homens concebem, em duas classes, em dois gêneros opostos, designados geralmente por dois termos distintos que as palavras sagrado e profano traduzem bastante bem. A divisão do mundo em dois domínios que compreendem, um, tudo o que é sagrado, outro, tudo o que é profano, tal e o traço distinto do pensamento religioso.”[1]
É Deus, perdoando o povo pelo exercício do profano, em vistas de que, através de alguma oferenda ao sagrado, alcancem seu favor ao aplacar sua ira.
Coforme o Profo. Dr. Jung Mo Sung, “a Revelação só é ‘revelação’ quando configura algo novo, criativo”, e a tese panorâmica que vemos acima, de que uma religião se constitui à partir dessa equação ira (Deus) – sacrifício (povo) – favor (Resultado) X ira (D) – sem sacrifício (P)- maldição (R), pode descrever de forma sintética as bases para qualquer religião, mas não uma expressão de revelação.
Não é uma questão de crer ou compreender pois, se Deus é a gênese de todo mistério, não há como compreendê-lo ou como explicá-lo pelos sentidos ou pela inteligência.
Todavia esses são os instrumentos que temos para tal e em relação à questão do sacrifício, o ponto não é fé ou compreensão mas coerência com a “mente bíblica” que nos revela de forma macro o caráter do Deus cristão.
Anselmo da Cantuária e o Sacrifício Expiatório
Muito panoramicamente, o argumento é o seguinte: Deus, ser espiritual perfeito, é infringido pela desobediência humana no ato do pecado e requer reparação, uma vez que o ser perfeito não pode deixar que a criatura imperfeita o infrinja e continue sua existência sem nenhum tipo de reparação pois, caso as coisas se dessem dessa forma, a criatura teria mais poder e autonomia diante dos postulados do Criador do que o próprio Criador. O paradoxo se dá na medida em que o Criador exige uma reparação que não pode ser efetiva se partir da criatura. Como poderia um ser eterno ser infringido por sua criatura e não exigir reparação por isso. Como poderia uma criatura reparar de forma perfeita e eterna seu erro, sendo ela “criatura”.
A encarnação do próprio Deus se dá, então, como forma de reparar o erro da criatura através de um sacrifício expiatório de um ser perfeitamente humano e perfeitamente divino. Portanto o Cristo já nasce com a incumbência de morrer no lugar da criatura e, assim, cumprir de forma perfeita, pois ele é perfeitamente humano e perfeitamente divino, o que foi requerido por Deus como ato de reparação da infração humana.
Sendo assim, Cristo nasce para morrer. Sua principal missão é a morte expiatória que restabelece a ordem depois do caos do pecado da desobediência. E somente Ele, Jesus Cristo, Deus, poderia oferecer um sacrifício que satisfizesse a expectativa da divindade infringida, pois Ele mesmo é divino. Só um sujeito humano, com a plenitude dos predicados divinos, pode ressarcir uma dívida que é humana para um credor que é divino. Cristo reúne as duas plenitudes e é o único que pode solucionar tal pendência.
Uma Outra Possibilidade
A tese de São Anselmo da Cantuária é a base da teologia da expiação do cordeiro na igreja protestante reformada, o que já sugere status de cânon. Parece-me que um Deus que requer expiação pelo erro e reparação pelo pecado, não tem na misericórdia e graça os pilares de seu relacionamento com a criatura.
Por que então estabelece-se um cerimonial austero e rigoroso em todo o Antigo Testamento para que a criatura se relacione com a divindade cristã?
Penso que uma possibilidade seria demonstrar ao homem sua incapacidade de cumprir a lei de forma que esta servisse de metáfora para sua própria incapacidade de agradar ao Criador ou se achegar a Ele. É aqui que encontra-se a revelação cristã, a novidade criativa. Não é a criatura que se achega ao Criador, é ele que o faz. Os ritos são expressões da demonstração da vontade da divindade de se achegar à criatura e não instrumentos de aplacação de uma ira patente.
Deus estabelece um conjunto de normas para que o homem tenha a ciência do quão impossível seria cumpri-las e tivesse a compreensão básica de que a possibilidade de um relacionamento com a divindade não se daria pelo cumprimento da lei ou pelo exercício do rito, mas pela consciência de sua presença, que se torna plena com a encarnação do Filho e o envio do Espírito.
E por que a necessidade da encarnação, morte e ressurreição? O homem do Antigo Testamento dá mais valor ao rito e ao sacrifício do que à lição que está por detrás dele. Dá mais valor à moral da lei do que ao objetivo dela. A encarnação se dá como cume de um processo pedagógico que tem no próprio Deus o seu protagonista, isto é, como o homem não entende a função do rito e da lei, o Messias vem com o propósito de estabelecer um novo modelo e extinguir a necessidade tanto do rito quanto da observação da lei mosaica. Por isso, no sermão do Monte, ele inicia seu pensamento com “a lei diz, eu porém vos digo”. No novo modelo, o Cordeiro cumpre de forma perfeita o sacrifício, não porque Deus o requereu, mas porque o homem não entendeu o seu propósito. Sendo assim o Messias realiza o sacrifício pela última vez, como forma de dizer que , se o homem deu mais valor ao sacrifício do que ao que estava embutido nele, a saber, a demonstração de que a divindade queria se relacionar com a criatura, agora o sacrifício foi cumprido com plenitude e perfeição, pois foi feito pelo cordeiro Deus/homem que, inaugura ou relembra, a categoria na qual a divindade quer estabelecer uma dinâmica relacional com sua criatura.
Portanto o sacrifício do Cristo não é nem requerido nem, tampouco, contingente, mas um ato pedagógico que sabota a forma do homem relacionar-se com Deus e estabelece, ou restabelece o modelo que a própria divindade requer.
Se o sagrado é a manifestação daquilo que é o mais adequado ao humano, portanto, daquilo que, como pessoa, posso e devo ser, um Deus que requer ressarcimento ao preço do sacrifício de seu filho, parece mais uma divindade pagã do que o Deus amoroso, misericordioso e criativo cristão.
Considerações Finais
Desde a infância ouço a máxima de que “Deus é amor, mas Deus é justiça”. Em primeiro lugar a conjunção adversativa “mas” entre amor e justiça, pressupõe que uma coisa é contrária à outra, a primeira afirmação duvidosa. Amor e justiça são atributos que caminham na mesma direção. Talvez a palavra justiça traga embutida uma carga negativa, de punição, de ressalva e é isso mesmo que as pessoas querem dizer quando lançam mão da afirmação acima. O amor não é suficiente para exercer o governo quando se tem a expectativa de um Deus de poder, que pune o pecador que não lhe sacrifica mas abençoa aquele que o agrada o que nos mantém, de alguma forma, no controle das coisas, uma vez que nosso sacrifício é um instrumento regulador das ações de Deus. A afirmação bíblica é que “Deus é amor” e só. Esse é o problema, pois se Deus é amor, Ele perdoa e se perdoa, não cobra. Se Deus é amor, não ama por merecimento, sendo sua natureza básica o amor, ama simplesmente. Se ama, não exige sacrifício de nenhuma ordem. Se não exige sacrifício, a morte de Jesus não o foi, pois o Pai não a exigiu.
Qual o porquê essencial de sua morte? O amor. Tanto que sua missão baseia-se na afirmação encarnada de que o “Reino de Deus chegou” e que as “boas novas são para os pobres” e, ainda, que “toda autoridade lhe foi outorgada nos céus e na terra” e que deveríamos fazer discípulos baseados na autoridade daquele que veio “fazer novas todas as coisas”, isto é, dar a possibilidade e as diretrizes para um novo jeito de ser gente, um novo jeito de se estabelecer relações e um novo jeito de se conviver socialmente em todas as instâncias, inclusive a religiosa. Portanto sua missão baseia-se no amor do ato da encarnação e a última conseqüência disso foi sua morte, como prova de que não precisaríamos mais sacrificar, uma vez que os rituais de sacrifício do Antigo Testamento não eram para agradar a divindade ou aplacar sua ira, senão para entender que Ele estava no meio do povo.
Com isso a mensagem cristã exclui qualquer forma de sacrifício como um ato de se agradar uma divindade, em vistas de alcançar o seu favor. Isso é paganismo. A mensagem cristã é a do Deus que “não julga por usurpação o ser igual a Deus”, encarna-se e humilha-se em vistas de sentir a dor do outro e de demonstrar que a divindade veio até a criatura para demonstrar o quão está disposta a se relacionar com ela de graça, em amor.
O Antigo Testamento é a antessala do Novo. É como se, no Antigo, assistíssemos a um filme em preto e branco e no Novo, em cores.
A primeira celebração de Pessach, nome hebraico da Páscoa, ocorreu quando Deus enviou as dez pragas sobre o povo do Egito (Êxodo 7 a 12). Antes da décima praga, Moisés foi instruído a pedir para que cada família sacrificasse um cordeiro e molhasse os umbrais das portas com o sangue do cordeiro, para que não fossem acometidos pela morte de seus primogênitos (Êxodo 12).
Chegada a noite, os hebreus comeram a carne do cordeiro, acompanhada de pão ázimo e ervas amargas. À meia-noite, um anjo enviado por Deus feriu de morte todos os primogênitos egípcios, desde os primogênitos dos animais até os primogênitos da casa do Faraó. Então o Faraó aceitou liberar o povo de Israel para adoração no deserto, o que levou ao Êxodo.
Como recordação desta liberação, foi instituído para todas as gerações a festa da Pessach, a Páscoa, a passagem da escravidão para a liberdade.
No Novo Testamento, o relato mais impressionante de todos é o que descreve mais uma vez um sacrifício, mas, agora, o do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, o cordeiro perfeito.
Deus, desde o Antigo Testamento, mostra seu ímpeto relacional ao querer constantemente revelar-se ao homem. Institui uma série de ritos e liturgias de modo que o humano consiga de alguma forma conhecer lampejos do sagrado. O humano, por sua vez, dá mais valor ao rito do que ao que ele significa, dá mais valor à festa do que ao que ela celebra, mais valor ao sacrifício do que ao que ele representa. Assim aconteceu também com a festa da Páscoa. Passou-se a enfatizar mais o sacrifício do cordeiro, do que o que ele representou: o preço da liberdade.
Jesus se encarna, se humaniza para, de uma vez por todas, cumprir pela última vez o rito do sacrifício do cordeiro para que, depois disso, toda pessoa entendesse o real sentido da páscoa, agora, mais do que a passagem da escravidão para a liberdade, A DA MORTE PARA A VIDA.
Portanto, o sacrifício de um cordeiro pascal, primogênito e perfeito era o símbolo de quanto custou a liberdade de um povo, um preço alto, mas pago por um outro alguém, para que se entendesse que receberam a liberdade de forma gratuita, mas ela custou o sangue de um cordeiro. O povo deu mais valor ao símbolo do que ao que ele significava. A Páscoa em Israel virou uma festividade muitas vezes sem sentido e sem memória.
Então Jesus, o Deus encarnado, se apresenta na Páscoa não como o Deus a quem se deve um sacrifício, mas como o Cordeiro a ser sacrificado. Se a humanidade não entendeu o preço da liberdade que nos foi dada de presente pelo próprio Deus em troca da morte de um cordeiro, o sacrifício virou fim em si mesmo e não mais um símbolo pedagógico do alto custo da passagem da escravidão para a liberdade. Jesus vem para ser esse cordeiro e sacrificar-se de uma vez por todas, para que entendêssemos o valor real desse símbolo e, mais do que isso, seu preço.
O próprio Deus se faz gente e sacrifica-se para que toda gente não só tenha a oportunidade de passar da escravidão à liberdade, mas, agora, da morte para a vida e, pela grandeza e valor definitivos desse sacrifício, entendam que o Pai queria nos ensinar que o fim da Páscoa não era o sacrifício em si, mas a lição de que Ele nos quer perto, livres e vivendo a vida como ela deve ser vivida e por esse fim Ele pagaria o mais alto preço.
Tudo isso para termos a santa possibilidade de entendermos um pouco, agora em cores, não mais em preto e branco, da grandeza desse amor que, levado às últimas consequências, imolou o próprio Deus em favor da humanidade.
É Deus fazendo o caminho de vida e morte para nos abrir o caminho DA MORTE PARA A VIDA.
Fabricio Cunha
Investir a vida em coisas eternas fará de nós pessoas eternas.
Pessoas que trazem o “pra sempre” para o tempo finito e o recheiam de sentido eterno, que reconhecem os lampejos da eternidade no agora, usufruem deles nessa vida e que derramam as suas vidas na do outro.
Gente assim, mesmo quando não vive mais, continua a existir.
Era um sábado pela manhã quando cedi à tentação de ligar a televisão. Todos ainda estavam dormindo. Sem TV a cabo, zapeei pelos canais abertos a procura impossível de algo interessante.
Parei para assistir um pastor “evangélico” fazer a sua exposição “nada” bíblica. Estava com um bonito livro na mão, uma Bíblia, à qual ele atribuía o poder de, se os compradores dessem atenção aos comentários de rodapé, ficarem ricos. Continuou dizendo que se nós, telespectadores, não tínhamos uma vida de devoção à igreja, de forma que não investíssemos nossos recursos nela, igreja (com “i” minúsculo mesmo), estaríamos vulneráveis aos ataques do “gafanhoto migrador” (figura que simboliza a devastação de nosso bens materiais como fruto de maldição) devido a porta que, pela falta das ofertas na igreja, abriríamos ao diabo.
Fiquei pasmo! Como pode alguém em rede nacional, apelar ao medo para conseguir dinheiro, manipular a fé das pessoas para conseguir realizar os seus sonhos megalomaníacos.
Pensei em mim e em outros tantos amigos que tentam a duras penas exercer um ministério sério. Quase me canonizei…
Mas pensei um pouco mais. Nunca pedi dinheiro dessa forma, nem lancei mão do citar maldições como o pastor o fizera, mas já usei o medo para conseguir algo de uma pessoa, já criminalizei o mundo e desviei a minha culpa culpando estruturas espirituais, já fui pedra de tropeço para a fé de mais novos pura e simplesmente para vencer uma discussão religiosa.
Pedi perdão na hora. Primeiro por me achar um santo em relação àquele homem; segundo, por me lembrar que também manipulei a fé de outros para conseguir algo para mim ou meu ministério.
Fé é algo sagrado. O coração das pessoas também.
Manipular a fé de outrem para que gravitem em torno de alguém ou de uma instituição é pecado.
Muitas instituições fazem com que as pessoas vivam em função delas. Geram, assim, indivíduos tímidos em relação à vida, dependentes em relação à fé e confusos em relação a si mesmos.
A Igreja existe para viver em função das pessoas, gerando pessoas autônomas que sabem viver a vida como um todo de um jeito cristão e, cuja fé madura, sabe discernir entre o bem e o mal sem a necessidade de um tutor.
Assim, pastor é um guia espiritual para o rebanho e não um oráculo ao qual devemos obediência irrestrita. E ele não guia sozinho, o faz com a ajuda dos irmãos mais maduros na fé, todos guiados pelo Espírito Santo à luz das Escrituras.
Portanto, gente querida, confiem mas desconfiem. A régua é a Bíblia Sagrada. A chancela é o Espírito Santo que habita nossos corações. Tudo o mais está comprometido pelo pecado, uns mais, outros menos.
Fabricio Cunha
Parem tudo.
Silêncio.
O que está havendo?
Céu cinza, colore.
Tempestade vira brisa.
O tempo que corre, pára.
Pára, mas eterniza.
Aquilo que falta, sobra.
Aquilo que sobra, falta.
Árvore seca, flora.
O belo aos olhos ressalta.
O agreste vira mar.
Todo caos se harmoniza.
Todo olho alumbrar.
Esse mundo precisa.
Abrir-se-á o portal.
Ansiedade acomete.
Todo mero mortal.
Ante ti se derrete.
Mulher, ser “quase” perfeito.
Coroa da criação.
Do artista o melhor feito.
Não cabe em explicação.
É linda, doce, singela.
Intensa, forte e sagaz.
É esguia, é segura e imponente.
Quer carinho, nada mais.
Mulher que cuida de muitos.
Procura quem cuide de si.
Mulher em quem cabe o mundo.
Tão pequena, cabe aqui.
Mulher, somos devotos teus.
É fácil nos subjugar.
Condenaste-nos ao céu.
A nossa pena é te amar.
Singela homenagem ao ser mais fascinante da face da terra.
Fabricio Cunha
Lá se foi o Dom, quem tinha o DOM.
Dom do simples mas não do medíocre.
Dom da palavra, do ensino, Dom de mestre.
Dom jovial, Dom subversivo, praticado nas frentes, Dom labutado.
Dom utópico, Dom da vida, da política, da esperança.
Dom servil, Dom humilde, discípulo.
Dom da amizade, Dom do papo, da conversa que faz parar o tempo.
Dom das letras, Dom dos ótimos textos, da filosofia pé no chão.
Dom irreverente, Dom resoluto, profético.
Daquele Dom patente, Dom constrangedor, brilhante.
Dom alegre, Dom camarada, da partilha.
Dom histórico, Dom notável.
Dom dele, Dom ele, nosso. Dom agora devolvido ao Pai.
Por sua memória Dom,
Dom Edward Robinson de Barros Cavalcanti [† 1944 - 2012]
SP, 28-fev-2012.
escrito por Thiago Lima, Barraka
extraído de http://peregrinocaminho.wordpress.com/2012/02/28/dom-memorial-a-robinson-cavalcanti/